Psiquiatria - Setor de Internação
12/01/2015
Na primeira aula, conhecemos o setor, os funcionários, e os pacientes; neste dia também escolhemos os pacientes do estudo de caso, ficamos estudando os prontuários para o estudo de caso, que seria apresentado no último dia de prática (ver dia 26/01/2015).
"Ao meu ver, o setor é assustador, nenhum pouco acolhedor, os pacientes não ficam separados por sexo, o que pra mim é um grande problema, pois por causa das medicações a libido dos pacientes aumentam, e eles não respondem pelos seus atos, então acho que isso é irresponsável e indigno.
Na entrada do setor há uma grade, que faz com que qualquer um se sinta preso e isso é desesperador, se eu senti isso, imagina os pacientes, que já estão assustados pela situação, pela falta da família. Acredito que se o ambiente fosse mais acolhedor os pacientes se sentiriam melhor, menos excluídos e talvez se sentiriam realmente tratados e não abandonados. No setor há também um local de recreação, acredito que seja o lugar mais agradável, porém os pacientes podem ir pra lá apenas um horário durante o dia, no meio da tarde. Os pacientes ficam internados no máximo 45 dias, e após a internação são encaminhados para acompanhamento no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).
Penso que se um dia eu necessitasse de uma internação, o meu quadro só pioraria por ficar internada lá, falo sobre esse setor pois não conheço outro hospital psiquiátrico e acredito que na minha cidade há apenas esse, e a realidade que conheço de hospital psiquiátrico é essa.
Não entrei em detalhes aqui, mas já havia comentado que quando nasci minha mãe teve Depressão Pós-Parto e foi internada na Psiquiatria, houve momentos em que ela fugia, chegava totalmente nua na minha casa, e assim de acordo com algumas coisas que ela conta, tudo isso gerou um sofrimento muito grande para toda a família, principalmente pra ela, algumas vezes, ela comenta que naquela época, ela perdeu tudo e realmente o paciente psiquiátrico se sente assim, ele se sente excluído pois muitas vezes a família interna o paciente, e continua a vida sem ele, e ao meu ver, a desinstitucionalização ainda não tem sido efetiva."
Depressão Pós Parto
Também chamada de psicose pós parto é um exemplo de transtorno psicótico não especificado que ocorre na mulher que teve um bebê recentemente. Esta síndrome é geralmente caracterizada por depressão materna, delírios e pensamentos de machucar a si mesmo e ao bebê. Tanto a ideação suicida quanto a homicida devem ser cautelosamente monitoradas. Embora raras, algumas mães têm cometido tais atos. Os dados mais robustos sugerem uma estreita relação entre psicose pós-parto e transtornos do humor, particularmente transtorno bipolar e depressão maior.
A incidência de psicose puerperal é de 1 a 2 por 1000 nascimentos. De 50 a 60% das mulheres acometidas tiveram seu primeiro filho e aproximadamente 50% dos casos envolvem partos sem complicação Peri-natal. 50% das mulheres afetadas têm uma história familiar de transtorno do humor.
As evidências estatísticas indicam que um episodio de psicose puerperal é essencialmente um episódio de transtorno do humor, geralmente bipolar, mas podendo também ser um transtorno depressivo maior (unipolar). Dois terços das pacientes têm um segundo episódio de transtorno do humor no ano seguinte ao nascimento do bebê. O processo do parto pode ser melhor visto como um stress não específico que causa o desenvolvimento de um episodio depressivo maior do humor, talvez devido a alterações hormonais.
Os sintomas de psicose puerperal podem se iniciar em dias após o parto, embora a média de inicio seja em 2 a 3 semanas e quase sempre dentro de 8 semanas após o parto. Os sintomas iniciais são euforia, humor irritável, logorreia, agitação, insônia, choro fácil, labilidade emocional, déficits cognitivos moderados (principalmente de memória), estes sinais prodrômicos (antecipatórios) geralmente precedem os sintomas floridos. Aparecem, então, delírios, ideias persecutórias, alucinações e comportamento desorganizado, desorientação, confusão mental, perplexidade e despersonalização. Mais tarde, de modo insidioso, idéias confusas, incoerência do pensamento, estados de irracionalidade e pensamentos obsessivos sobre a saúde do bebê podem aparecer. O delírio pode envolver a idéia de que o bebê está morto ou doente.
Como em toda psicose, devem ser descartadas outras causas orgânicas: hipotiroidismo, Cushing, psicose induzida por farmacos (pentazocine-talwin- medicação para dor) ou antidepressivos durante a gravidez. Outras causas são: infecções, toxemia e neoplasia – de psicose orgânica.
As pacientes podem negar o nascimento do neném e expressar pensamentos de não serem casadas, de serem virgens, perseguidas, influenciadas ou perversas. Alucinações com conteúdo similar podem envolver vozes, dizendo à paciente para matar ao bebê e a si mesma. Ordens para não se mexer , parar ou caminhar (vozes de comando) são comuns.
Uma vez desencadeada a psicose, a paciente pode ficar perigosa para si ou para o recém-nascido, dependendo do conteúdo de seu sistema delirante e grau de agitação. Em um estudo 5% das pacientes cometem suicídio e 4% cometem infanticídio. Um bom prognóstico está relacionado com um bom funcionamento pré-mórbido e suporte familiar. Gestações subseqüentes estão associadas com risco aumentado de novos episódios, em mais de 50% dos casos.
A psicose puerperal é uma emergência psiquiátrica. Medicação anti-psicótica e Carbonato de Litio, geralmente combinados com um antidepressivo são as medicações de escolha. Poucos medicamentos deve ser prescritos a mulheres amamentatndo. Pacientes suicidas podem requerer transferência para uma unidade psiquiátrica para prevenção de suicídio. As mães geralmente melhoram com o contato com a criança, se assim o desejarem, mas as visitas devem ser supervisionadas de perto, especialmente se a mãe já falou em machucar a criança. A Psicoterapia é indicada depois do período agudo de psicose e a terapia é geralmente direcionada para ajudar a paciente a aceitar a maternidade e suas mudanças. Mudanças de fatores ambientais também são fundamentais como aumento do suporte pelo marido e outros familiares. A maioria dos estudos mostra altas taxas de recorrência da doença.
Os fatores de risco fortemente associados são história pessoal de depressão, episódio depressivo ou ansioso na gestação, eventos de vida estressantes, pouco suporte social e financeiro e relacionamento conjugal conflituoso. Outros prováveis fatores de risco são história familiar de transtornos psiquiátricos e episódio de maternity blues, características de personalidade, padrões de cognição negativos e baixa autoestima. Também estão associados complicações obstétricas, parto prematuro, primiparidade, fatores culturais, história de abuso sexual ou de relação conflituosa com a mãe e gravidez não desejada.
O quadro psicótico no pós-parto é uma situação de risco para a ocorrência de infanticídio. Um estudo feito na Índia com mulheres internadas com quadros psicóticos no pós-parto revelou que 43% delas tinham ideias infanticidas69. O infanticídio geralmente ocorre quando ideias delirantes envolvem o bebê, como ideias de que o bebê é defeituoso ou está morrendo, de que o bebê tem poderes especiais ou de que o bebê é um deus ou um demônio. Devem ser sempre investigados nos quadros de psicose pós-parto comportamento negligente nos cuidados com o bebê e ideias suicidas e infanticidas.
Quanto ao prognóstico, observa-se que cerca de 20% têm remissão completa do quadro e não apresentam recorrências. Estudos sugerem que há recorrência de novo episódio de psicose pós-parto em 18% a 37% das mulheres e que pode haver episódio subsequente, fora do pós-parto, de algum transtorno psicótico ou afetivo em 38% a 81% das mulheres. Como o quadro da psicose pós-parto é grave, geralmente é necessária internação hospitalar. Causas orgânicas devem ser excluídas e o tratamento deve ser o mesmo que o recomendado para transtornos psicóticos agudos.
Referências
CANTILINO A. et al. Transtornos psiquiátricos no pós parto. Revista de Psiquiatria Clínica. São Paulo, 2010.
Kaplan & Sadock, Synopsis of Psychiatry – Tenth Edition – 2007
Tópico: Psiquiatria - Setor de Internação
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